Visto por M. Teixeira-Gomes, em "Inventário de Junho" (1899)
João de Deus na vida prática foi homem que deixou andar sempre o seu "crédito por mãos alheias" e nunca soube "vender o seu peixe", como se diz no Algarve. Artista e boémio. Ninguém como ele adquiriu tão universal reputação de preguiçoso e de perdulário. Esta última balda perdeu-o na opinião das provincias , conquanto não haja notícia de que o poeta uma única vez na sua vida tivesse gasto cem mil reis, porque nunca os teve. Soberbos filósofos tentaram governá-lo, tutelá-lo mesmo; foram os que mais lhe imputaram a incansável preguiça. Clamavam que só impondo ao seu espírito certa orientação - cada qual, a sua - se conseguiria dele maior e melhor copia de produções; quiseram em resumo "emendar-lhe a mão" mas não emendaram, afortunadamente.
Tão pouco escapou à vista aleivosa dos políticos graúdos que o chamaram para o seu grémio: resistiu o poeta; isto no tempo em que andavam cheios os cofres públicos. Artista e boémio. Buscava consolar a alma com os versos que fazia, cristalizando as suas impressões e entre sorrisos, exclamando: a vida é um bem. Esta a sua divisa. Mas é amarga a vida; no entanto ele nunca pensou em vender versos ...
Publicado por TRIPÉ em janeiro 28, 2004 10:27 AM