janeiro 22, 2004

António Gedeão

Catedral de Burgos

A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.

Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!


António Gedeão
in Gazeta de Física , Vol. 20, Fasc. 1 , 1997

Publicado por TRIPÉ em janeiro 22, 2004 12:03 PM
Comentários

Ora Viva!
Curioso encontrar por aqui o poema mais pequeno de Gedeão e aquele que eu mais tenho utilizado para início de relatórios e dossiers de estágio por mim realizados.
Desde pequena que sei de cor o seu poema emblemático "Pedra Filosofal", mas outros dois poemas me deixam rendida à mestria das suas palavras e clareza de raciocínio: "A Catedral de Burgos" e "Poema para Galileo".
Entrei este site sem saber o que era e comento, com muito prazer, o sentimento que sinto ao ver que muitos outros apreciam a sua obra.
Sugestão: Leiam o fac-simile de Rómulo de Carvalho -" Origens de Portugal, História Contada a uma Criança", é edição da Fundação Calouste Gulbenkian, foi escrito à máquina de escrever na década de 40.Tem ilustrações do autor e teve como origem a sua vontade de ensinar ao filho a história do nosso país.É sublime e duma poesia que nos enternece.
Quase a completar-se 7 anos sobre a sua morte e toda a sua obra é tão viva e cheia de paixão!

Bem haja professor Rómulo de Carvalho pela grandiosidade da sua sensibilidade!

Ana

Afixado por: Ana em janeiro 27, 2004 02:01 PM

Gostámos que alguém gostasse.
Rómulo de Carvalho acompanha-nos desde o início deste blog. O Departamento de Física tem, felizmente, muitos 'tesouros' que sempre, sempre, nos fascinam.

Afixado por: TRIPÉ em fevereiro 3, 2004 09:48 AM

Mais um poema de A. Gedeão:
Poema da eterna presença

Estou, nesta noite cálida,deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito!
Esta incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)


O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.


O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.


Se eu tivesse a memória das pedras
que logo entram em queda assim que se largam no espaço
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de caír;
se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga,
sem que nenhuma se esquecesse de propagar;
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminham sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a Terra.


Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido
do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome;
da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;
guardei a memória do amor,
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;
guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,
à formação do Universo.


Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para min
Já cá estavam.
Estão.
E estarão.
Poemas Póstumos 1983

Afixado por: Tripé em fevereiro 10, 2004 10:08 PM